O BRASIL E SUAS CONTRADIÇÕES

Por prof. Wilton Oliveira


Este país é realmente enigmático. Algumas de suas contradições já são inclusive clichês, a exemplo, da sua riqueza econômica, sexta maior economia planetária, contrastando com a 84ª colocação no IDH, perdendo para todos os países da América do Sul. Outras são mais elaboradas. Temos governantes que nasceram na esquerda política, ou seja, com base marxista, um PT, Partido dos Trabalhadores que em plena ditadura militar organizava manifestações publicas em repúdio a ausência de direitos e, principalmente esbravejava pelo direito de reivindicar. Hoje esse mesmo grupo que após assumir o poder, tornam-se tiranos e essencialmente liberais, isso mesmo, privatizam nossas estradas, nossos portos, nossas praças esportivas e agridem estudantes e pais de família que mesmo agindo de forma apartidária são rechaçados.
A sensação de que fomos enganados, traídos e, por conseguinte, feitos de bestas é notória. Apoiamos a vinda da copa, tínhamos a esperança, ou melhor, a certeza que existiriam obras de melhoria em toda a cidade. Mas, infelizmente, na prática, os prefeitos, os governadores e a PRESIDENTA, só garantiram lucros para as empreiteiras na construção de estádios, enquanto o povo desafia a lei da física em ônibus assoberbados e parados em congestionamentos. Poderiam ficar aqui discutindo essa temática por dias, pois assunto é que não falta.


Entretanto, gostaria de chamar atenção para mais uma grande contradição. Antes dos últimos ocorridos, dessa demonstração de cidadania, que confesso me encheu de orgulho, pois percebo uma valorização moral do nosso trabalho como professores em sala de aula, tínhamos uma grande discussão em pauta. A redução da maior idade penal. A grande maioria da sociedade é favorável a essa diminuição de 18 para 16 anos. É comum ouvir que: - se o jovem pode votar, tem discernimento para o certo e para o errado, desta forma, se comente um ato infracional, deve ser visto como crime e, desta forma, tratado como criminoso.
Diante deste tema convidamos para uma reflexão. O nosso contraditório de plantão, também conhecido como Brasil, é referência mundial em uma lei de defesa, a criança e o adolescente, ECA, reconhecida e elogiada internacionalmente como uma lei moderna, que compactua com os Direitos Humanos, que valoriza a vida, a dignidade humana, a família e a vida em sociedade. Além disso, tramita no congresso nacional um projeto de lei complementar, que ficou conhecida como lei das palmadas, a qual proibi o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes.
Em um primeiro olhar nada demais, porém em percepção mais apurada, algumas contradições podem ser percebidas. Dentre elas: de acordo com o nosso legislativo nossos adolescentes apresentam maturidade aos 16 anos para votar e escolher presidente ou presidenta, mas não podem dirigir um carro, não respondem por homicídios, tráfico de drogas, roubo e ou Sequestros? Temos então que nos resolvermos. Se podem votar são adultos e neste caso devem responder como tal. Se forem adolescentes, são vítimas, de uma país desigual onde as oportunidades são para poucos. Neste caso temos que perdoá-los, acolhe-los, dar-lhes carinho que o Estado negou.
O Estado cobra das famílias: rigor, compromisso, responsabilidade, inclusive legitimado no próprio ECA, mas, a grande massa da PEA brasileira ganha salário mínimo, e tantos outros tem o Ensino Médio, devidamente convalidado pelo Estado, mas são analfabetos funcionais. Será que o Estado tem idoneidade moral, para cobrar equilíbrio emocional de pais?
Esses pais que trabalham 44 horas semanais, atravessam favelas e invasões desprovidos de segurança entre 4h e 6h da manhã, que pegam transportes “públicos” lotados, que levam marmitas e retornam fechando seu passeio pendular cotidianamente nos mesmos horários, sendo acochado ou roubados pelas mesmas pessoas cotidianamente. Sem falar nas condições de construção das suas casas, em encostas, com esgoto correndo a céu aberto, sistema de água potável questionável, eletricidade compartilhada. Nos dias, ou melhor, noites de chuvas momentos de apreensão ou a própria ignorância de sua situação real serve de antídoto. Enquanto isso, a elite financeira aproveita para usar seus edredons, essas pessoas podem de fato ser cobrado a dar uma educação pautada no diálogo e no exemplo?
E quando o diálogo e o exemplo não são suficientes? O Estado tem o poder de agir coercitivamente, ou seja, espancar e jogar em um depósito para recuperação de atores de infração, muda-se as nomenclaturas, mentem-se os contextos. E como ficam as famílias que vêem seus filhos se criando sozinhos enquanto as escolas públicas são meras fachadas para aumentar à estatística e o now know do país junto às instituições internacionais?  Aquelas que percebem seus filhos vulneráveis ao poder paralelo, enquanto os pais têm que cumprir o horário do burguês?
Câmaras de vereadores vergonhosas, com propostas ridículas, vide: de criação de hospitais para animais, enquanto crianças dormem ao relento. “Se você não gosta de animal o problema é seu, se maltratar o problema é meu!” Essa afirmativa estava no outdoor de Salvador, com a cara de um vereador, populismo burlesco, enquanto nos postos de saúde pública do município crianças morrendo sem atendimentos.

Deputados estaduais preocupados somente com os valores que irão arrecadar com suas ementas, para seus redutos eleitorais, mantendo o voto de cabresto. A maior seca dos últimos anos em uma região rica em lençóis freáticos. Querendo colocar a culpa na chuva, em Deus, quando é sabido que a má distribuição de renda e o estado de miserabilidade da população garantem a eleição desses mesmos anticristos.
Os deputados federais são representantes do povo. De que povo? Dos parentes deles, com táticas de dinheiro no bolso, mensalão, nepotismo, luxos patrocinados pelo povo. Não se vota NADA, no congresso sem que exista uma barganha política, e o interesse popular NUNCA é a prioridade, muito pelo contrário, se tal benéfico ajudar à popularidade da presidenta, não vota, trava a pauta. E a política do quanto pior, melhor, prevalece. E o povo? Esses ô!
O Senado, representantes das unidades federativas, três para cada uma delas. O que fazem mesmo? Ajudam a sugar do país as riquezas e garantir que seus latifúndios sejam prósperos e que as empreiteiras que pagaram suas campanhas ganhem as licitações dos mega projeto.
Não se tem a pretensão de defesa do discurso vitimado, na busca do messias ou da lei do menor esforça, porém é preciso dar a César o que lhes pertence e, também, cobrar do Estado suas obrigações. Por essas e, tantas outras, inquietudes algumas exógenas outras endógenas que a população está indo das ruas, não se acredita mais neste Estado, nestes representantes populistas e irresponsáveis e totalmente alheios a realidade do país. Se fosse solicitado a cada jovens das variadas idades, que estão participando de forma direta ou indireta desse movimento, que escrevesse um texto explicativo da sua participação no movimento, muitos seriam os motivos, mas com certeza todos nesta mesma tônica. São nos sentimos representados pelos políticos brasileiros e, muitos menos amparados pela REPUBLICA FERDERATIVA DO BRASIL.
Sem falar do desrespeito, constante a Constituição Brasileira, que desde sua própria promulgação, em 1988, é desobedecida. Seus Artigos 5º e 6º são poesias aos ouvidos de desalentos a realidade. Como já dizia CAZUZA: - que país é esse?
Wilton Oliveira

Professor de Geografia

Salvador, Bahia, 24 de junho de 2013.

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