SOCIALISMO, O FALSO E O VERDADEIRO

Socialismo, o falso e o verdadeiro

Por: Noan Chonsk

pode-se questionar o significado do termo “socialismo”, mas se ele tem algum significado, este é,
antes de tudo, o controle de produção pelos próprios trabalhadores, não pelos donos e dirigentes que
os comandam e tornam decisões, seja em empresas capitalistas ou em Estados totalitários.
Referir-se à União Soviética como socialista é um interessante caso de duplo sentido doutrinário. O
golpe bolchevique, de outubro de 1917, colocou o poder de Estado nas mãos de Lenin e Trotsky,
que se apressaram em desmantelar as incipientes instituições socialistas que haviam crescido
durante a revolução popular nos meses anteriores – os conselhos de fábricas, os sovietes, na
verdade, qualquer órgão de controle popular – e converteram a força de trabalho naquilo que eles
chamaram de “exército de trabalhadores” sob o comando do líder. Em qualquer significado mais
profundo do termo “socialismo”, os bolcheviques apressaram-se, mais uma vez, em destruir os
componentes (socialistas) nele existentes. Desde então, nenhuma divergência socialista foi
permitida.

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Esses acontecimentos não causaram nenhuma surpresa aos líderes intelectuais marxistas, que
vinham, ao longo dos anos, criticando as doutrinas de Lenin (assim como as de Trotsky) porque elas
centralizariam o poder nas mãos dos líderes de um partido de vanguarda.
Na verdade, décadas antes, o pensador anarquista Bakunin tinha previsto que os integrantes da
classe intelectual, que estava surgindo, seguiriam um dos dois caminhos apresentados: ou eles
tentariam explorar as lutas populares para tomar o poder estatal, tornando-se uma brutal e opressiva
burocracia vermelha, ou eles tornar-se-iam os dirigentes e os ideólogos de uma sociedade capitalista
estatal, se a revolução falhasse. Em ambos os casos foi uma observação perspicaz.
Os dois mais importantes sistemas de propaganda do mundo não concordavam em muitas coisas,
mas eles concordaram em usar o termo socialismo para referirem-se à destruição imediata de todo
componente de socialismo pelos bolcheviques. Isso não surpreende muito. Os bolcheviques
chamaram seu sistema de socialista para explorar o prestígio moral do socialismo.
O Ocidente adotou a mesma prática por uma razão aposta: difamar os temíveis ideais libertários,
associando-os com os calabouços bolcheviques para minar a crença popular de que seria possível o
progresso em direção a uma sociedade mais justa, preocupada com as necessidades e os direitos
humanos, pelo controle de suas instituições básicas.
Se o socialismo é a tirania de Lenin ou Stalin, então uma pessoa sã dirá: não é para mim. E se essa é
a única alternativa ante o capitalismo empresarial de Estado, então muitos submeter-se-ão a essa
estrutura autoritária como única escolha razoável.
Com o colapso do sistema soviético, há uma oportunidade viva e vigorosa de ressurgir o
pensamento libertário socialista, que não foi capaz de resistir aos assaltos repressivos e doutrinários
em seu mais importante sistema de poder. O quanto é grande essa esperança não podemos saber.
Mas pelo menos uma pedra do caminho já foi removida. Nesse sentido, o desaparecimento da
União Soviética é uma pequena vitória para o socialismo, muito mais do que o foi a derrota do
poder fascista
.
A mídia
Sejam chamadas de “liberais” ou de “conservadoras”, as principais mídias são grandes empresas
pertencentes e interligadas a conglomerados maiores ainda. Como as outras empresas, elas vendem
um produto para o mercado. O mercado são os anunciantes, isto é, outras empresas. O produto é o
público. É a elite da mídia que estabelece uma agenda básica, à qual as outras se adaptam. O
produto é, portanto, um público relativamente privilegiado.
Assim, temos as grandes empresas vendendo um público razoavelmente rico e privilegiado a outras
empresas. Obviamente o quadro apresentado reflete os valores e os interesses, estreitos e
preconceituosos, dos vendedores, dos compradores e dos produtos.
Outros fatores reforçam a mesma distorção. Os dirigentes culturais (editores, colunistas
importantes, etc.) compartilham interesses de classe e associações com os dirigentes do governo e
das empresas, além de outros setores privilegiados. Há, na verdade, um fluxo regular de pessoal de
alto nível entre empresas, governo e mídia. Para se ter acesso às autoridades estatais, é importante
manter posições competitivas: “vazamento de informações”, por exemplo, são amiúde maquinações
produzidas enganosamente por autoridades, em cooperação com a mídia, que finge nada saber.
Por sua vez, as autoridades estatais exigem cooperação e submissão. Outros centros de poder
também têm dispositivos para punir o distanciamento da ortodoxia, abrangendo desde a bolsa de
valores até um eficiente sistema de difamação e calúnia.
O resultado não é, logicamente, inteiramente uniforme. Para servir aos interesses dos poderosos, a
mídia deve apresentar um quadro toleravelmente realista do mundo. Entretanto, às vezes a
integridade e a honestidade profissional impedem a missão primordial. Os bons jornalistas
geralmente são bem conscientes dos fatores que caracterizam o produto da mídia, e procuram usar
as aberturas que aparecem. O resultado é que se pode aprender muito, por meio de uma leitura
crítica e isenta, com aquilo que é produzido pela mídia.
A mídia é apenas uma parte de um sistema doutrinário maior: as outras partes são os jornais de
opinião, as escolas e as universidades, as pesquisas acadêmicas, e assim por diante. Estamos mais
cônscios da mídia, particularmente a mídia de maior prestígio, porque é nela que estão concentrados
aqueles que analisam criticamente a ideologia. O sistema maior tal como é não tem sido estudado,
porque é muito difícil investigá-lo sistematicamente. Mas há bons motivos para acreditar que ele
representa os mesmos interesses que os da mídia, como qualquer um pode imaginar.
O sistema doutrinário, que produz aquilo que chamamos “propaganda”, ao falar de inimigos tem
dois alvos distintos: um do alvos é aquele que, algumas vezes, é chamado de “classe política”, cerca
de 20% da população relativamente instruída, mais ou menos articulada e que desempenha algum
papel na tomada de decisões. Sua aceitação da doutrina é fundamental, porque ela (a classe política)
está em posição de traçar e implementar diretrizes políticas.
Em seguida, vêm os outros 80% da população. Estes são “os espectadores da ação”, a quem
Lippmann descreveu como a “a horda confusa”. Eles existem supostamente para obedecer a ordens
e sair do caminho das pessoas importantes. Eles são o verdadeiro alvo dos meios de comunicação
de massa: os tablóides, as comédias familiares, a Super Taça e assim por diante.
Esses setores do sistema doutrinário servem para distrair a grande massa e reforçar os valores
sociais básicos: a passividade, a submissão às autoridades, as predominantes virtudes da avareza e
da ganância pessoal, a falta de consideração com os outros, o medo de inimigos reais e imaginários,
etc. A finalidade é manter a já confusa horda mais confusa ainda. Não é necessário dizer para eles
se aterem ao que está acontecendo no mundo. Na verdade, isso é até indesejável, pois se eles
observarem demais a realidade, podem se decidir a transformá-la.

Isso não quer dizer que a mídia em geral não possa ser influenciada pela população. As instituições
dominantes – sejam elas políticas, econômicas ou doutrinárias – não são imunes às pressões
populares. A mídia independente (alternativa) pode também desempenhar um papel importante.
Embora ela, até por definição, careça de recursos, tem a mesma importância que as organizações
populares: ao reunir pessoas com recursos limitados, que podem multiplicar sua eficiência e sua
própria compreensão, pela interação – esta é precisamente a ameaça democrática tão temida pelas
elites dominantes.